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    July 07

    VIDA E MORTE DO SER

    VIDA E MORTE DO SER

    Talvez o que a revolução industrial tenha produzido de mais impactante no ser não seja a evolução dos materiais, nem a ciência dos moldes cartesianos, muito menos uma facilidade para viver. Talvez a própria lógica da produção (no sentido capitalista, relação social que prevê um processo que gere um produto palpável e por isso negociável) tenha sido sua unívoca solução para o homem, pois tudo que ver-se de positivo nela é a conscientização das coisas. Das coisas não só em um sentido geral, mas antes material. Tal fato nos situa em mundo onde tudo deve ser produzido, e até o século XX, só podíamos entender aquilo que podemos produzir (não é por nada que todas as ciências ainda são experimentais, lembremo-nos também que aquilo que não fica na história, como a conhecemos hoje, é aquilo que não tem "valor"), e esse parece ser o único locus que o "SER" domina (que fundem a fenomenologia e que fundam a mente de Satre), não consigo observar onde mais o homem pode ter certezas. E eis que o corrente século funda um novo problema, a necessidade passa a ser de reprodução (no sentido midiático, parecendo ser a realidade que podemos conhecer, ou seja, aquilo que é possível ser retratado). Só parece ser compreensível algo que possa ser reproduzido (eis que os direitos autorais entram em crise), pois ao que me parece, precisamos de uma moral que fundamente nossas opiniões (é aqui que parece não mais ser necessária uma tradição), em escalas de progressão geométrica, assim, a representação toma a frente do real. Mas a grande questão que deve-se enfrentar talvez seja a desnaturalização de tudo que é humano, tudo o que possa ser produzido, e por isso reproduzido.
    Esse é o atual drama humano. Não se trata de sociedade. Nem de cultura, isto tende a chegar ao nível da filosofia prática de Kant!...isso nos leva a outra questão, será que não fazemos com que as coisas se tornem humanizadas com maior acuidade, uma espécie de linguagemzização do mundo?  O fato é que as coisas não deixam de ser coisas, e por isso são negociáveis, o capitalismo não foi inventado, só fez frente ao sonho romântico de um estado (no sentido estar e no sentido de governo) socialista que é a degeneração do homem como um todo, de sua metafísica à biologia. Nada no homem indica tal possibilidade em escala absoluta, nenhum momento histórico nos mostrou essa possibilidade como fato, e se o drama humano é o que diz Renato Russo:  "...O que eu quero, eu não tenho. O que eu não tenho, eu quero ter. Não posso ter o que eu quero, e acho que isso não tem nada a ver (com o que eu quero mesmo [grifo meu] )..." Vejo a necessidade de nos conscientizarmos de tais impossibilidades, pois se o absoluto de um modo geral, no homem é doença, não posso ver uma sociedade sem desigualdade. O que pedem todos os esbravejadores da igualdade é que todos consigamos viver em um locus diverso, e não que você possa comer da deliciosa pizza de 20 dólares que eu como. É aqui que surge uma polêmica das grossas, sejamos diversos mas não amorais.

    Será então a linguagem do homem econômica? Ou melhor matemática? E a poesia? e a intuição? e tudo o que escapa à racionalização, mas não deixa de ser do homem? essas são questões para a próxima reflexão.

     ...Se não morrer até os trinta me ajeito.

    Montaraz

     

    December 14

    pedaço de vida mal vivida

    Hoje a minha negrinha não está na senzala, ela está de férias, vai receber o décimo terceiro e se endividar com todo mundo, inclusive comigo, pois vai ter que trabalhar mais pra pagar as dívidas que fará. Lembrei dela porque a encontrei ontem, no planetário, ela estava se divertindo; na verdade lembrei porque achei que vocês imaginassem que eu sou um pervertido, e dez vez em quando eu gosto disso, mesmo sabendo que não sou, gosto que pensem que sou, só pra ganhar mais uma máscara. Lembrei dela também porque pensei em convidá-la pra vir aqui em casa, pra tomar um cafezinho, mas tinha me esquecido que normalmente nós não conversamos, e hoje, o que haveríamos de conversar? Lembro de um filme que a última pessoa a dar a mão a uma americana granfina e preconceituosa foi uma escravinha dessas, que pra piorar ainda era latina. Lembrei de chamar a minha, também pra me mostrar caridoso, simpático ou pra imitar uma Clarice que deveria ser bem espontânea em casos como este. No mesmo instante lembrei que faz muito tempo que não sinto algo no fundo da alma, faz tempo que não sou aplacado pelo mundo, acho que esse negócio de se envolver nos pensamentos funciona como um sorrisal, me deixa sempre preparado para acidez do mundo e das pessoas, deixando a digestão mais suportável, até parece que eu tatuei um amuleto na minha cabeça, nem deixo as coisas boas nem as ruins me cortar. O problema é que sou gente, e sinto falta de feridas (porra, todo mundo vai pensar que sou masoquista, bando de imbecis, não sabem que as coisas boas também causam cicatrizes e que são boas?) Nem a solidão me aflige mais, agora eu tô mansinho, envolto da mais profunda racionalidade...Poxa, com tantos pensamentos esqueci de convidar (na verdade eu acho que tava era me sentindo só, nem lembro mais da pretinha) as pessoas para um Sarau, o foda é que sempre tem alguma coisa pra atrapalhar, por exemplo: No fim de semana que passou, quando tive a idéia, o salão de festas esteve sempre disponível, mas não tive coragem suficiente de me levantar da merda desse computador, poxa, acho que estou ficando velho, acho que estou definhado, será por isso que já tô me sentindo só? Por exemplo, agora eu tô tão só que não consigo nem pensar, só lembrar, lembrar, lembrar de pessoas que têm enorme genialidade e que talvez por isso, em um mundo como este, não aparecem. Alguém diria, se não aparece é porquê não é inteligente...Mas ser inteligente é muito mais que ser esperto, muitas vezes, ser esperto é burrice, chega a ser mal caratice, eu sou tão esperto quanto um animal, as vezes acho que os animais são na verdade ex-filósofos encarnados, por exemplo, as vacas, nietzsche já sentia inveja delas, inveja de pertencer ao mundo fazer o que tem que ser feito e não se angustiar disso. E os pássaros? Esses é que são verdadeiros espíritos livres, só vivem para a ação, são peregrinos que não devem nada, e ainda são ótimos nas artes. Carái, fico puto quando acontece isso....ueuehuhe, olha aí, já tenho um compromisso, nem me deixam escrever...
    October 18

    Ensaio Hume

    Este ensaio tem como objetivo esclarecer as idéias de ceticismo que o empirismo humeniano suscita quando relacionado ao principio da causalidade e da identidade subjetiva.

     

     

    Comecemos pela importância que Hume dá às impressões, já que é delas que o próprio tenta fundamentar a não existência de um eu real ao qual nenhuma pessoa pode ter acesso e contato. Vale ressaltar que existem dois tipos de impressões. Uma é a imaginativa, essa que temos de uma coisa nunca vivida, e outra a perceptiva, aquele que vivenciamos e relembramos. A perceptiva, para ele, é a mais forte, porém não há nada como a percepção imediata, o momento que em sente-se uma impressão.

    Sempre que Hume fala sobre impressões devemos entender essa distinção das percepções, daremos mais atenção a essa impressão que vem de tudo aquilo que se transforma em idéia após uma relação empírica dos nossos sentidos com a realidade. David Hume verifica que é insuficiente uma introspecção cartesiana, diz ter executado esse método de Descartes, e contrariado ter percebido apenas simples impressões de calor ou frio, raiva, dor, desejo, tudo em separado e nunca completando um conjunto denominado “eu” (myself). Tudo que se é apresentando ao eu distintamente  só faz uma simples referência a uma impressão vivida. A dúvida que justifica uma permanência e estabilidade do eu não pode ser acatada, pois nunca somos um só, e muito menos o mesmo. Ou seja, Afirma Hume com seu empirismo, que todos os nossos sentimentos (percepções) vêm dos sentidos, nada existia antes, e nada existirá sem possuirmos essas ferramentas de apreensão da realidade. Uma pessoa que nasce privada de sentidos não tem vida, não tem subjetividade. Por exemplo, quando eu penso em amor, como uma coisa infinita e que já existia antes mesmo de nascer, estaria eu, multiplicando ao infinito uma percepção que tive ao abraçar minha mãe. E todas as vezes que eu sentir essa alteração no meu corpo farei uma relação com aquele momento anterior, isto nos faz pensar em uma quebra da idéia de amor exógeno. Permita-me abrir um parêntese: Nas primeiras leituras achei que ele havia se contradito por saber que uma das suas críticas é relacionada ao princípio de causalidade, exatamente quando pensou causalidade no empirismo (você sente porque tocou), agora entendo que isso não é causalidade, se trata de relação de significantes. Isso já poderia dar uma introdução à refutação do princípio de causalidade, porém, uso apenas para começar a falar de ceticismo que é levantado com esse seu empirismo radicalizado.

    É com o ceticismo que Hume orienta seu pensamento principalmente na direção da refutação do eu subjetivo e do desligamento ao princípio de causalidade. Como acreditar que existe algo completo e indivisível, durável e imaginável, se todas as idéias que se configuram em nossa mente são fracas, passageiras e insustentáveis?

    Quando tento perceber quem sou eu nunca encontro essa essência, o que me faz pensar que nada tem essência sucinta, real, ontológica. Mesmo exemplo do amor. Voltemos a Heráclito, tudo que existe nunca foi nem será o mesmo, sempre existirá uma transmutação das essências, parte por nossas percepções, parte pelo próprio objeto de fora que muda. Penso que Hume tem essa mesma concepção cética quando relaciona o mundo com o existir, talvez ele imaginasse que tudo é um movimento perpétuo. O eu não pode ser sustentado, já que para isso deveria haver uma essência estável na metafísica. A discussão fica interessante quando tentamos imaginar uma outra “coisa” que Hume chama a atenção, um possível princípio universal.

                Mesmo sendo totalmente radical na não concepção de uma essência estável, Hume se debruça em um fato intrigante. Parece que, neste mesmo todo caótico que pode se tornar, ou que já é nossas mentes, há uma “coisa” que é inexplicavelmente universal. A Saber, que, em nossas mentes podemos perceber que parece haver um agente controlador de coerência, uma “coisa” mesmo que não deixa o trem sair dos trilhos. Podemos fazer analogia a certas teorias subversivas como, teoria do caos (ordem no caos), inconsciente freudiano (loucura coesa) ou até mesmo entender que em nossa mente nunca houve alguém que percebesse o tempo e o espaço de modo diferente, salvo os doentes mentais. Por que tanta complicação? Não se trata de embelezamento textual, essa “coisa” é paradigmática mesmo e pode chegar a ser contraditória. Se eu começasse a escrever palavras soltas que não têm conexão alguma, sabemos, que na minha mente, estaria eu escolhendo uma desordem, ou seja, organizando uma desorganização. Isto parece suscitar um bom questionamento à teoria de Hume, pois imaginar alguma faculdade inata ao ser implicaria em uma quebra total do empirismo.

                A tentativa de quebra do princípio de causalidade me deixa completamente desorientado, e por isso sinto obrigado a ter uma discussão superficial. Tentarei em poucas linhas reproduzir a estrutura do pensamento humeniano como se ele já conhecesse a física de Newton.

    Não conseguiria, talvez pelo hábito, entender como uma lei física poderia ser contrariada. Digamos que ao soltar um corpo no vácuo, este permaneça a flutuar. Não vejo aqui uma possibilidade plausível, salvo por uma intervenção divina miraculosa. E exatamente por não conceber um autor cosmogônico, a estrutura da minha mente também considera destituída essa possível intervenção na mecânica newtoniana. Porém, isso me faria creditar uma permanência e eternidade do universo, assim, mesmo que eu pudesse visualizar um gigantesco tempo passado que afirma sempre a mesma coisa em uma relação de causa-efeito, não posso em sã consciência afirmar com toda a certeza que daqui a 110 bilhões de anos o universo irá se comportar da mesma forma. Sei que minha mente é, talvez por necessidade de sobrevivência, estruturada nos termos do meio em que vivo. Por exemplo, se eu vir uma pessoa morrer ao ingerir veneno, este fato ficará fixado de tal forma na minha memória a ponto de que eu sempre esperarei que uma pessoa morra ao ingerir aquele mesmo tipo de veneno. De modo que, mais uma vez nos deparamos com os limites da nossa cognição. E se meu corpo começasse a flutuar? E se o sol morresse? E se o veneno não me matar? Quem sabe se não é normal que um veneno durante alguns séculos mate, e em outros não? Quem sabe se a evolução não fabricou um “ser humano” baseado em silício que não morre com aquele veneno? Tudo parece ser permanentemente caótico e sem uma causa primordial.

    Por isso considero Hume um cético pré-fisicalista radical.

     

     

     

     

    Bibliografia:

    MARCONDES, Danilo; Textos Básicos de Filosofia: Dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

    MARCONDES, Danilo; Iniciação à História da Filosofia: Dos pré-socráticos a Wittgentein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001
    July 15

    dê o título

         Ai João, lembra da palavra lembrar? lembra o quanto é gostoso estar só? Estar em comunhão consigo? É a melhor maneira de fugir das manifestações desse cotidiano vil. Não quero ser político, nem ativista "camarada". Não quero fazer parte desse momento histórico. Ontem lutava-se pela democracia, hoje luta-se pela hipocrisia.

         Agente olha pra si mesmo e não se reconhece, ser filho, ser esposo, ser amante, ser valente, ser sensível, ser doente. Quem sou eu? Posso sentir alguma cousa?(referência a Aristóteles) Henfil certo dia escreveu uma carta:

    "São Paulo, 1º de Setembro de 1978. Eu nunca soube amar, eu nunca soube amar a cada um, eu nunca soube ama-los como indivíduos, eu nunca soube aceitá-los como feios, fracos e lentos. Tragam um doente e não chorarei com ele, mas me mostrem um hospital e derramarei rios e mares. Eu não sei falar e ouvir um homem, uma mulher ou uma criança. Eu só sei fazer coletivo, massa, povo, conjunto. Sou capaz de ser herói, mas não sou capaz de ser enfermeiro. Sou capaz de ser grande, mas não sou capaz de ser pequeno. Eu nunca dei uma flor, nunca amei uma pessoa, e tenho amor. Dou desenhos, dou textos, escrevo cartas. Sem contato manual, sem intimidade, sem entregar. Por que desenho? Por que escrevo cartas? Minha arte é fruto da minha importância de viver com vocês, um dia vou rasgar o papel que escrevo, rasgar o bloco que desenho, rasgar até esse recado covarde e vou me melar e besuntar com vocês, tudo com o meu grande beijo. Vocês vão me reconhecer fácil, vou ser o mais feliz de vocês.”

         Tudo o que sou parece ser reflexo do que querem, esqueci ou perdi a identidade que nem sei se tive? Lembrar se torna cáustico, abrasivo. Mas reconfortante. É como estar entre o céu e o inferno. Assim como a igreja precisa do pecado eu preciso de problemas (referência a vocês).

    June 17

    Solidão

          Nunca senti algo tão forte! como pode um sentimento tão simples, que parece estar sempre presente ser a causa de tantos outros? É tão fácil de se resolver, um tiro na cabeça e pronto. Vais eternamente compartilhar de um lugar único com todos os outros que já foram. Não falo do paraíso, ou do inferno. Falo do estar morto. E não venha me dizer que há possibilidades de voltar, isso não é como um jogo, não tem segunda fase, nem continue. Pode ser que inventem uma cura para a morte, mas quem já foi não volta mais. 

          Você que continua vivo, espere mais um pouco, não ponha a carroça na frente do burro. Logo, logo chegará a sua hora. Daqui a vinte minutos seu coração pode parar. Ei! e larga esse cigarro, tu pode ter um derrame cara!(rsrsrs). E esse pensamento de que os momentos são eternos? (uahuahuah) É tão etéril, tão inútil que agente acaba vivenciando só passado, como se viver o presente fosse lembrar, relembrar. Quando sou eu vivendo? fico lembrando uma coisa que aconteceu em um livro, um filme, ou uma estória contada pra saber se o momento foi bom ou ruim. E como viver? Preso no presente eterno? Idealizando futuros? Relembrando passados?  Que complicado! É por isso que sempre me sinto preso no tempo vítima do eterno retorno do mesmo. "Esse negócio de subjetividade só serve para suscitar solidão"